quarta-feira, maio 22, 2013

quando

quando o avião vier tocar o chão daquela terra que não é a minha, quem sabe meu corpo não se transforma em outro, com a habilidade invejosa dos homens de esquecer?
mas não com você.

quinta-feira, maio 02, 2013

a partida: parte dois

ninguém sabia, mas eram estranhos de mãos dadas. ninguém sabia, mas queriam se apagar. ninguém sabia, mas seus corpos estavam se desmanchando aos poucos. primeiro os pés apontando para lados opostos, depois os rostos que não se encostavam há meses, as palavras que ficaram engasgadas em gargantas alheias, os cabelos que esbranqueciam e caíam, as pernas que não se tocavam, os seios que se apertavam sozinhos, os dedos que tremiam, as mãos que suavam segurando outras, a pele descacava, os lábios rachavam, as rugas apareciam, os olhos ardiam, as pintas sumiam. os desenhos no corpo dela, só dela. o sim nos lábios deles, só deles. e todos os nãos que seus corpos respondiam. não não não não não não não não não não não não não não não não não não não não. os corpos sendo abandonados aos poucos.

segunda-feira, abril 15, 2013

a partida: parte um



do seu lado havia um estranho que conhecia há mais de meia década. ainda assim, estranho. acontece com algumas pessoas: a falta de tempo ou vontade de se conhecer de perto, bem perto; outras, quando chegam muito perto, não gostam do que veem e tratam de sair correndo, mas não de uma vez, aos poucos, bem devagar para que o outro não note o abandono. mas eles sempre notam.
de qualquer forma, eram milhares de pés de distância do chão, e sozinha, porém acompanhada, ela estava em um avião, sobrevoando seu país pela que se tornaria a última vez. de início, essa última vez não passava de uma dúvida, mas logo se tornou sólida e saudosa. não voltaria a pisar naquele lugar que tanto relutara em chamar de casa. não havia muita dor naquela despedida, aqueles que ficaram torciam por ela, a dor estava bem ali, no assento ao lado. um futuro e um amor partido.
por alguns segundos, ela acreditara que aquele garoto de trinta e poucos anos seria sua parte mais valiosa: sua casa. mas segundos passam muito rápido e os dias trazem a realidade. e ela tinha uma abundância de realidade em cada pinta do seu rosto.
ela não o conhecia, sabia aquilo que haviam vivido juntos, porém em perspectivas diferentes. poucos meses antes de estarem tão alto no céu, ele a havia pedido em casamento durante uma cena um tanto piegas e um tanto carinhosa. ela, vivendo aquele segundo de crença pura, havia aceitado. mas, como já disse, a realidade os atingiu poucos dias depois. um conselho que ela daria aos juradores de amor: cuidado com suas promessas. ela, por outro lado, evitava qualquer tipo de promessa. sua única jura era com sua vira-lata, a quem jurara cuidar e amar para sempre. egoísmo da parte dela, pois cachorros têm o amor como um instinto selvagem: comer, mijar, cagar, amar. humanos estão mais para: comer, mijar, cagar, trepar e julgar. então, entenda que seu amor pela sua doce vira-lata não passava de um egoísmo e um medo controlado.
nenhum deles gostaria de estar ali, naquele momento, naquele sentimento. no fundo, ambos desejavam um corpo que um dia amaram e que não mais conseguiam encontrar, que agora não passava de um corpo invasor em cada um deles. alguns dias, eles alimentavam e nutriam esse invasor, outros, lutavam com todas as forças para expulsá-lo, cavando buracos rasos em suas peles e fazendo suas unhas sangrarem.

terça-feira, fevereiro 19, 2013

here we go again


dorinha já estava cansada de esperar.

seis anos passou esperando, se torcendo e esperneando entre palavras já não mais sentidas. seis anos, dorinha repete constantemente, com ar de surpresa e desconforto.

dorinha, em frente ao espelho, seis anos mais velha, de novo. de novo. de novo. dorinha havia batalhado, reconstruído uma vida e conquistado um novo espaço, em que seu corpo podia, de vez em quando, respirar. então, de novo. a vida, o espaço, o corpo nunca mais poderão voltar para casa.
dorinha não está contente. pelo contrário, está derrotada. mas não há mais nada que possa fazer. enfim, aquele mal inacabado voltou a conquistar sua voz. invadindo, aos poucos, como se nunca houvesse estado lá, sua pele, seus orgãos e olhos. ele diz: let it go, let it go. ela, exausta, não teima em negar e repete: de novo, de novo, de novo.

segunda-feira, dezembro 31, 2012

Que 2012 não se repita. não porque foi ruim, mas porque o marasmo acomoda e entedia. Portanto, que o 2013 de todos, inclusive o meu, seja inundado de "diferentes". Pessoas diferentes, lugares diferentes, histórias diferentes, abraços diferentes... Os dias e as pessoas importantes sempre ficam e são levadas a todos os novos dias. O meu ano foi completo, cheio, lotado e abusado do belo e do feio. E só posso esperar que o próximo ciclo de 365 dias seja tão abundante quanto o último... e assim por diante.

sábado, dezembro 08, 2012

tentar

procuro por algo. porque se nada houver, meu corpo calará a busca constante. prometo. mas ainda procuro. e é por isso que continuo líquida. e é por isso que aquilo que me dá vida ainda não tem forma. e é por isso que a minha falta é imensa.

domingo, novembro 11, 2012

26

então, by now, já era para ser tarde e tudo em seu devido lugar, encaminhado, quase lá. A louça não deveria ter acumulado, a lâmpada não deveria ter queimado, o cachorro não deveria ser triste.

casa
cama cheia
cereal colorido
vestido amarelo
laço roxo no cabelo alto
meu corpo dançando em festival
vento forte com areia entre algumas dunas de natal
manhã acordada amassada em meio ao nada e só você no final
ventre pulsando anunciando uma alegria a mais de sardas rosadas me afastando do mal. 

please.

i cant stop noticing the ageing parts of my body.
the worst part is not the wrinkles that are gathering around my eyes but my empty corners. for every white string of hair there's a year of lacking and missing.
i'm growing like every being on this planet and still it doesn't seem fair. i cant get used to the fact that there's nothing too special about breathing and that maybe all my ordinary dreams won't come to life.
most of the days I'm restless about everything, but for the last two or three years I've been asleep and motionless.
wake me up.

domingo, outubro 14, 2012

dia a dia

é lento. o processo de se tornar só é muito lento. tão devagar que requer extrema atenção para notar. primeiro, você percebe as chaves, que permanecem sempre no mesmo local, sem se mover. às vezes, com a janela aberta, elas balançam também devagar. então, se dá conta que estão ali desde a última vez em que você esteve ali. depois, com mais dedicação, percebe-se os pratos. sempre os mesmos ímpares pratos. porque ninguém teria a coragem de visitá-lo sozinho, sempre em pares, mantêm a casa ímpar. depois, as horas, que, como o processo, se tornam lentas e barulhentas. as horas gritam enquanto se preenchem em minutos arrancando o pouco de tempo que pensava ter. aos poucos, consegue enxergar as caixas, os restos de você, com nomes e pedaços de corpos. somente restos. quando acredita que tudo não passa de um sonho distraído de quarta-feira, nota-se o cheiro. alguém esbarra em seu corpo pela rua e aquele cheiro o engole como se fosse infância.

preferia gritar

hoje não. não quero falar de amor, daquele amor que você diz sentir por mim, aquele que eu um dia pensei sentir por você. não quero falar sobre nossas expectativas que falharam em ser. a verdade é que não quero falar. ponto. preferia gritar. gritar para as pessoas que verei amanhã. gritar chega. gritar não. hoje não.